O Sangue |
Versão e Encenação Figurinos Cenografia Iluminação Elenco Cabeleiras Grafismo e Fotografia Produção Produção Executiva Divulgação |
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| O Sangue é uma sátira
de Fernando Gomes a partir do romance homónimo de
Camilo Castelo Branco. É uma crónica, tragicómica, caricatura da sociedade portuense em meados do séc. XIX. O Dinheiro, a Felicidade, o Pecado e a Expiação - elementos essenciais e omnipresentes no universo Camiliano - desta vez, com o rigor de uma atmosfera operática. "O Sangue" conta a história de uma família de abastados comerciantes judeus do Porto - os Barros - que casa uma filha adoptiva com o próprio filho para que o seu dinheiro - o dinheiro dos Barros - continue na família. O resultado é desastroso. O casal não se dá bem, separa-se, a rapariga engravida de outro homem, foge com ele mas deixa o filho, Pedro. Este crescerá na ignorância sobre quem é o seu verdadeiro pai e, já adulto, quando confrontado com a verdade, escolhe "a voz do sangue", ou seja, o dinheiro dos Barros. O sangue de Pedro é o dinheiro dos Barros. O dinheiro é sangue. Um filho só pode ser filho de quem é seu pai, quando não herda uma fortuna de outro... que foi casado com sua mãe. O Sangue foi o espectáculo escolhido para comemorar a abertura do Espaço Teatroesfera. |
Baseia-se esta peça num Romance de
Camilo Castelo Branco chamado "0 Sangue", cuja lª Edição
conheceu a luz do dia em Março de 1868, em Lisboa.
Camilo, o
Romancista, que de si próprio disse:
"Não deixo nada. Deixo um exemplo.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825 -
1890), que passaria a assinar-se Camilo Castelo Branco, ficou
conhecido pelo nome próprio, Camilo. Ainda em vida conheceu a
celebridade (o que era raro!) e continua ainda hoje a ser uma das
figuras mais proeminentes da Literatura Portuguesa e Peninsular,
que ninguém ignora. 0 património por ele legado ao País é de
valor incalculável e eterno.
Nasceu Camilo em Lisboa em 16 de Março de 1825 e morreu em Vila
Nova de Famalicão, na sua casa de S. Miguel de Ceide, pondo
termo a uma existência martirizada com um tiro de revólver na
cabeça, em 1 de Junho de 1890.
De entre todos quantos escreveram até hoje em Língua
Portuguesa, o mais produtivo em quantidade e qualidade, foi o
primeiro a assumir-se como escritor, no sentido profissional do
termo, aquele que sempre soube que com o suor da sua pena teria
de se sustentar.
Ele próprio uma "personagem", provavelmente mais
conhecida do que algumas das figuras que criou, por causa da vida
"ruidosa" que levou, sempre no "fio da navalha"
em muitos aspectos, desde o económico ao sentimental e com
conhecimento próprio do "Wild side of life",
que se reconhece na ligação intertextual que une o "texto"
da sua vida real com o texto das obras em que ela se configura.
Nunca como em Camilo os mitos ficcionados se confundiram tanto
com os mitos biográficos.
Por isso, apreciemos resumidamente a Vida, para, resumidamente
também, nos aproximarmos da Obra: - foi Camilo um filho ilegítimo
de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de mãe desconhecida,
provavelmente uma criada do pai, que faleceu tinha ele 2 anos.
Aos 10 assiste à agonia e morte do pai o que o obriga, a ele e
à sua única irmã Carolina a refugiar-se em Trás - os -
Montes, em casa de uma tia, onde vive de forma complicada até
sair em direcção ao Porto para seguir o trilho de escritor,
como se cumprisse um fado, um destino pré-determinado a que não
podia, nem queria, fugir.
Falhou em tudo quanto fosse Escola oficial ou estudo tradicional,
assim como nas suas agitadas relações amorosas: casado aos 16
anos com ama jovem de 15, teve deste casamento uma filha, Rosa,
que morre na primeira infância, assim como sua mãe; entretanto,
ainda antes do desfecho que o deixa viúvo quase na adolescência,
vive maritalmente com Patrícia Emília de Barros de quem tem
também ama filha, Bernardina Amélia.
Na sequência desta relação escaldante (em Vila Real!) teve que
fugir para o Porto, onde finalmente, já com certa notoriedade
protagoniza um escândalo ao apaixonar-se e ser correspondido por
uma mulher casada da alta sociedade portuense, Ana Augusta Plácido,
cujo marido, o "brasileiro" Manuel Pinheiro
Alves, os perseguiu num longo processo de adultério durante o
qual esteve preso, por várias vezes na Cadeia da Relação do
Porto, assim como a sua amante com o filho, que entretanto
enviuvara e que velo a ser a mãe dos seus filhos Manuel, Jorge e
Nuno (o louco), mas com quem só se consorciou no fim da vida e,
ao que consta, não de muito boa vontade.
Ao longo da sua vida, para além destas mais frutuosas relações
foi tropeçando em muitas outras relações passionais, umas mais
bem sucedidas, outras menos, incluindo entre elas uma freira, que
acabou por lhe provocar uma "crise" mística que o leva
a pensar tomar ordens e o faz escrever obras de temas religiosos,
mas que depressa se volatilizam, no encalço de outros amores...
e outros assuntos!
Entre 1845 e 1890 publica incessantemente, num labor quotidiano
imenso, que lhe "afinou" a mente e a mão, de tal modo
que há na sua enorme bibliografia obras-primas escritas em
poucos dias, quase sem qualquer correcção, como se o anjo (o do
Talento) o guiasse pela folha de papel.
A totalidade da sua obra, que já fez correr muita tinta e ainda
não alcançou a unanimidade divide-se em géneros tão dispares
como a Biografia, a Critica, a Epistolografia, a História, a
Miscelânea, a Narrativa, a Polémica, o Romance, o Teatro e o
Jornalismo, entre outros, num número de volumes, incluindo póstumos
e perdidos (5 peças da teatro, pelo menos) de centenas.
Foi no entanto como Romancista/Novelista que Camilo se impôs na
Literatura Peninsular e foi muito conhecido na sua época, ao
escrever obras fundamentais, de entre as quais se destaca a obra-prima
da Literatura Universal "0 Amor de Perdição", o
Romance mais Português e, talvez por isso, o mais universal.
Hoje, mais do que nunca, integrados numa Europa de tendências
niveladoras (muito respeitáveis!), devemos manter viva a nossa
cultura, pois "maiores" seremos, quanto melhor
soubermos preservar os nossos valores nacionais... e Camilo não
é o menor deles todos!
O Sangue
Quando escreve este romance já Camilo soubera granjear
notoriedade nas Letras Portuguesas. Escreveu-o com fulgurante
rapidez e mestria tendo falado dele, pela primeira vez em 18 de
Janeiro de 1868 numa carta ao seu amigo António Feliciano de
Castilho: "Estou escrevendo um romance chamado "O
Sangue"; mas não é bem um chouriço. É uma patacoada
".
A 29 do mesmo mês de Janeiro, de 1868, volta a escrever ao amigo:
"Já mandei para Lisboa "O Sangue". Deve estar
impresso no fim de Março."
A obra aparece realmente em fins de Março do mesmo ano,
publicada pela Livraria Campos Júnior da Rua Angusta em Lisboa,
impresso na Imprensa de Sousa Neves da Travessa de Sta. Catarina.
Até hoje, conheceu 7 edições, sendo a 7ª, publicada pela
Editora Quarteto, de Coimbra, em fins de Março de 1999 com execução
gráfica da Gráfica de Coimbra.
Existem muito poucos exemplares da 1' edição, a única revista
pelo autor, mas, um deles pode ser visto, muito bem conservado,
aqui bem perto, na Casa - Museu Ferreira de Castro em Sintra, que
possui um excelente acervo camiliano.
Na trama romanesca da obra, apresenta-se, com dolorosa clareza, o
drama do próprio Camilo: a relação atribulada com seu filho (?)
Manuel Plácido, a quem a "voz do sangue" nunca
impelira para os braços do pai. Em carta, citada por Aquilino
Ribeiro, de Camilo para Sena de Freitas, a propósito de Manuel
Plácido, lê-se o seguinte: "aquele Manuel a cuja agonia
V. Exª assistiu não era meu (!?) filho. Adoptei-o no coração
extremoso de pai e senti que o sangue nada é e nada conclui..."
Isabel Segorbe
Este Espectáculo foi feito sem apoio do Ministério da Cultura e contando com o trabalho gratuito de todos os criadores e colegas.
Temos esperança que esta seja a excepção que confirma a regra, para que o futuro do Teatro em Portugal sofra um processo de dignificação, que passa pela criação (com meios) de infra-estruturas, pelo aparecimento de novos projectos (estáveis e com continuidade) e também pela elaboração de um estatuto profissional para todos os que trabalham nesta nobre arte de representar.
A todos os
que acreditaram em nós, neste projecto e neste sonho, o nosso
mais profundo e sincero:
MUITO OBRIGADO!
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Em 2002 "O
Sangue" foi reposto no Teatro Maria Matos,
integrado nas comemorações dos 30 anos de carreira de Fernando Gomes, fez uma carreira de 3 semanas em Lisboa. O encenador do Espectáculo, Fernando Gomes, também participou, representando o papel do patriarca da família Barros. |