O Sangue
Emanuel Arada, Paulo B., António Filipe, Teresa Faria, Pedro Alpiarça, Paula Sousa, Paulo Oom, Custódia Gallego, Miró Cletos
de Camilo Castelo Branco

Versão e Encenação
Fernando Gomes

Figurinos
José António Tenente
António Filipe

Cenografia
Paulo Oom

Iluminação
El Duplo

Elenco
António Filipe
Custódia Gallego
Emanuel Arada (estagiário)
Miró Cletos (estagiário)
Paula Sousa
Paulo B.
Paulo Oom
Pedro Alpiarça
Teresa Faria

Cabeleiras
Paulo Vieira

Grafismo e Fotografia
Luís Silva

Produção
Teatroesfera

Produção Executiva
Conceição Ferreira
Paula Sousa

Divulgação
Isabel Nunes

Emanuel Arada, Paula Sousa, Paulo B., Teresa Faria, António Filipe
Emanuel Arada, Teresa Faria, António Filipe
Paula Sousa, Custódia Gallego
“O Sangue” é uma sátira de Fernando Gomes a partir do romance  homónimo de Camilo Castelo Branco.

É uma crónica, tragicómica, caricatura da sociedade portuense em meados do séc. XIX. O “Dinheiro”, a “Felicidade”, o “Pecado” e a “Expiação” - elementos essenciais e omnipresentes no universo Camiliano - desta vez, com o rigor de uma atmosfera operática.

"O Sangue" conta a história de uma família de abastados comerciantes judeus do Porto - os Barros - que casa uma filha adoptiva com o próprio filho para que o seu dinheiro - o dinheiro dos Barros - continue na família. O resultado é desastroso. O casal não se dá bem, separa-se, a rapariga engravida de outro homem, foge com ele mas deixa o filho, Pedro. Este crescerá na ignorância sobre quem é o seu verdadeiro pai e, já adulto, quando confrontado com a verdade, escolhe "a voz do sangue", ou seja, o dinheiro dos Barros. O sangue de Pedro é o dinheiro dos Barros. O dinheiro é sangue.

“Um filho só pode ser filho de quem é seu pai, quando não herda uma fortuna de outro... que foi casado com sua mãe.”

“O Sangue” foi o espectáculo escolhido para comemorar a abertura do Espaço Teatroesfera.

Paula Sousa, Pedro Alpiarça
Paulo B., Pedro Alpiarça
Paulo Oom


Baseia-se esta peça num Romance de Camilo Castelo Branco chamado "0 Sangue", cuja lª Edição conheceu a luz do dia em Março de 1868, em Lisboa.

Camilo, o Romancista, que de si próprio disse:
"Não deixo nada. Deixo um exemplo.

Camilo Castelo BrancoCamilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825 - 1890), que passaria a assinar-se Camilo Castelo Branco, ficou conhecido pelo nome próprio, Camilo. Ainda em vida conheceu a celebridade (o que era raro!) e continua ainda hoje a ser uma das figuras mais proeminentes da Literatura Portuguesa e Peninsular, que ninguém ignora. 0 património por ele legado ao País é de valor incalculável e eterno.
Nasceu Camilo em Lisboa em 16 de Março de 1825 e morreu em Vila Nova de Famalicão, na sua casa de S. Miguel de Ceide, pondo termo a uma existência martirizada com um tiro de revólver na cabeça, em 1 de Junho de 1890.
De entre todos quantos escreveram até hoje em Língua Portuguesa, o mais produtivo em quantidade e qualidade, foi o primeiro a assumir-se como escritor, no sentido profissional do termo, aquele que sempre soube que com o suor da sua pena teria de se sustentar.
Ele próprio uma "personagem", provavelmente mais conhecida do que algumas das figuras que criou, por causa da vida "ruidosa" que levou, sempre no "fio da navalha" em muitos aspectos, desde o económico ao sentimental e com conhecimento próprio do "Wild side of life", que se reconhece na ligação intertextual que une o "texto" da sua vida real com o texto das obras em que ela se configura. Nunca como em Camilo os mitos ficcionados se confundiram tanto com os mitos biográficos.
Por isso, apreciemos resumidamente a Vida, para, resumidamente também, nos aproximarmos da Obra: - foi Camilo um filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de mãe desconhecida, provavelmente uma criada do pai, que faleceu tinha ele 2 anos. Aos 10 assiste à agonia e morte do pai o que o obriga, a ele e à sua única irmã Carolina a refugiar-se em Trás - os - Montes, em casa de uma tia, onde vive de forma complicada até sair em direcção ao Porto para seguir o trilho de escritor, como se cumprisse um fado, um destino pré-determinado a que não podia, nem queria, fugir.
Falhou em tudo quanto fosse Escola oficial ou estudo tradicional, assim como nas suas agitadas relações amorosas: casado aos 16 anos com ama jovem de 15, teve deste casamento uma filha, Rosa, que morre na primeira infância, assim como sua mãe; entretanto, ainda antes do desfecho que o deixa viúvo quase na adolescência, vive maritalmente com Patrícia Emília de Barros de quem tem também ama filha, Bernardina Amélia.
Na sequência desta relação escaldante (em Vila Real!) teve que fugir para o Porto, onde finalmente, já com certa notoriedade protagoniza um escândalo ao apaixonar-se e ser correspondido por uma mulher casada da alta sociedade portuense, Ana Augusta Plácido, cujo marido, o "brasileiro" Manuel Pinheiro Alves, os perseguiu num longo processo de adultério durante o qual esteve preso, por várias vezes na Cadeia da Relação do Porto, assim como a sua amante com o filho, que entretanto enviuvara e que velo a ser a mãe dos seus filhos Manuel, Jorge e Nuno (o louco), mas com quem só se consorciou no fim da vida e, ao que consta, não de muito boa vontade.
Ao longo da sua vida, para além destas mais frutuosas relações foi tropeçando em muitas outras relações passionais, umas mais bem sucedidas, outras menos, incluindo entre elas uma freira, que acabou por lhe provocar uma "crise" mística que o leva a pensar tomar ordens e o faz escrever obras de temas religiosos, mas que depressa se volatilizam, no encalço de outros amores... e outros assuntos!
Entre 1845 e 1890 publica incessantemente, num labor quotidiano imenso, que lhe "afinou" a mente e a mão, de tal modo que há na sua enorme bibliografia obras-primas escritas em poucos dias, quase sem qualquer correcção, como se o anjo (o do Talento) o guiasse pela folha de papel.
A totalidade da sua obra, que já fez correr muita tinta e ainda não alcançou a unanimidade divide-se em géneros tão dispares como a Biografia, a Critica, a Epistolografia, a História, a Miscelânea, a Narrativa, a Polémica, o Romance, o Teatro e o Jornalismo, entre outros, num número de volumes, incluindo póstumos e perdidos (5 peças da teatro, pelo menos) de centenas.
Foi no entanto como Romancista/Novelista que Camilo se impôs na Literatura Peninsular e foi muito conhecido na sua época, ao escrever obras fundamentais, de entre as quais se destaca a obra-prima da Literatura Universal "0 Amor de Perdição", o Romance mais Português e, talvez por isso, o mais universal.
Hoje, mais do que nunca, integrados numa Europa de tendências niveladoras (muito respeitáveis!), devemos manter viva a nossa cultura, pois "maiores" seremos, quanto melhor soubermos preservar os nossos valores nacionais... e Camilo não é o menor deles todos!

“O Sangue”
Quando escreve este romance já Camilo soubera granjear notoriedade nas Letras Portuguesas. Escreveu-o com fulgurante rapidez e mestria tendo falado dele, pela primeira vez em 18 de Janeiro de 1868 numa carta ao seu amigo António Feliciano de Castilho: "Estou escrevendo um romance chamado "O Sangue"; mas não é bem um chouriço. É uma patacoada ".
A 29 do mesmo mês de Janeiro, de 1868, volta a escrever ao amigo: "Já mandei para Lisboa "O Sangue". Deve estar impresso no fim de Março."
A obra aparece realmente em fins de Março do mesmo ano, publicada pela Livraria Campos Júnior da Rua Angusta em Lisboa, impresso na Imprensa de Sousa Neves da Travessa de Sta. Catarina.
Até hoje, conheceu 7 edições, sendo a 7ª, publicada pela Editora Quarteto, de Coimbra, em fins de Março de 1999 com execução gráfica da Gráfica de Coimbra.
Existem muito poucos exemplares da 1' edição, a única revista pelo autor, mas, um deles pode ser visto, muito bem conservado, aqui bem perto, na Casa - Museu Ferreira de Castro em Sintra, que possui um excelente acervo camiliano.
Na trama romanesca da obra, apresenta-se, com dolorosa clareza, o drama do próprio Camilo: a relação atribulada com seu filho (?) Manuel Plácido, a quem a "voz do sangue" nunca impelira para os braços do pai. Em carta, citada por Aquilino Ribeiro, de Camilo para Sena de Freitas, a propósito de Manuel Plácido, lê-se o seguinte: "aquele Manuel a cuja agonia V. Exª assistiu não era meu (!?) filho. Adoptei-o no coração extremoso de pai e senti que o sangue nada é e nada conclui..."

Isabel Segorbe

Este Espectáculo foi feito sem apoio do Ministério da Cultura e contando com o trabalho gratuito de todos os criadores e colegas.

Temos esperança que esta seja a excepção que confirma a regra, para que o futuro do Teatro em Portugal sofra um processo de dignificação, que passa pela criação (com meios) de infra-estruturas, pelo aparecimento de novos projectos (estáveis e com continuidade) e também pela elaboração de um estatuto profissional para todos os que trabalham nesta nobre arte de representar.

A todos os que acreditaram em nós, neste projecto e neste sonho, o nosso mais profundo e sincero:
MUITO OBRIGADO!

Em 2002 "O Sangue" foi reposto no Teatro Maria Matos,

integrado nas comemorações dos 30 anos de carreira de Fernando Gomes, fez uma carreira de 3 semanas em Lisboa.

O encenador do Espectáculo, Fernando Gomes, também participou, representando o papel do patriarca da família Barros.