Autor: Manuel de Lima
Adaptação: José Carretas e Teresa Faria
Encenação: José Carretas
Actores: Helena Laureano, José Raposo, Paula Sousa, Paulo Oom, Rita Loureiro, Rui Paulo
Cenografia: Gilberto Gouveia e José Carretas
Figurinos: Margarida Wellenkamp
Música: Carlos Guerreiro e Orlando Costa
Desenho de Luz: El Duplo
MALAQUIAS, a história de um homem barbaramente agredido
Manuel de Lima, uma obra a redescobrir
O escritor Manuel de Lima permanece, cinco anos após a sua
morte, quase desconhecido mesmo junto do público que
habitualmente lê ficção. O autor de "Malaquias ou a História
de um Homem Barbaramente Agredido", que morreu em Lisboa em
30 de Outubro de 1976, é, no entanto, pelo seu percurso e pelo
trabalho que desenvolveu, uma personalidade surpreendente na
novelística portuguesa deste século.
Solitário, entre as boas intenções do movimento neo-realista e
as hesitações e desiquilíbrios do surrialismo lisboeta, Manuel
de Lima publicou, entre 1944 e 1972, dois romances, uma novela,
contos e uma peça de teatro.
O conjunto desta pequena obra descobre um visionário de difícil
filiação em grupos ou movimentos, mas onde seria interessante
analisar a recuperação que faz do humor negro e da ironia que
foram ptóprios de Eça de Queirós ou, noputra, escala, de
Almada Negreiros, em Lima revistos por uma consciência inovadora
absolutamente niilista.
Sem Título, Sem Data
José Carretas
Quem estiver à espera de ver Manuel de Lima ou de o rever através
deste espectáculo, o melhor que tem a fazer é comprar-lhe os
livros, lê-los, e se já os comprou, relê-los.
O escritor era um Homem demasiado complexo para reduzir a uma só
leitura ou a uma só peça. O homem era um escritor demasiado
complexo para arvorar em bandeira só de alguns.
Ainda por cima, esta novela, é como se malaquias de Lima gozasse
com um tal mal conhecido e mal amado Manuel que é muita gente.
Ainda por cima Manuel de Lima, o próprio, rodeou-se de alguma névoa
que dificulta o seu conhecimento profundo, mesmo para quem soube
dele em carne e osso.
Não é por acaso que aqueles que com ele lidaram necessitam de
tantos adjectivos e anedotas para o classificar.
De Lima, ainda há muita coisa por estudar e para dizer.
O Malaquias deste espectáculo é um pequeno Othello da Lisboa
dos anos 50, super homem doméstico de um drama em que deixou de
ser importante sabermos se a mulher, Olímpia, é ou não é
virtuosa. O que interessa é que este ciúme, afinal uma construção
alfacinha (provinciana) dos homens, impede às mulheres o direito
ao mistério.
Já não é preciso Iago a sussurrar ao ouvido. Iago é o que está
dentro do ouvido. Malaquias é um homem ridículo porque integra
os padrões e não se consegue integrar nos modelos de
comportamento. Pertence a uma época não extinta, em que o
atributo "manso" se pode aplicar aos sábios, mas é
ofensivo para os homens. Malaquias é um puritano de uma moral
incompreensível, desaquada não nos seus fundamentos, mas no
excessivo rigor demonstrado. É um tipo tão chato como os
santos, os fundamentalistas e a espada de Afonso Henriques.
Vejam como é terrível a situação dum homem que persegue a
sabedoria duma maneira idealista, ao mesmo tempo que não domina
o mundo real.
Infelizmente, tudo isto mantém actualidade porque continuam
Malaquias a flutuar por essa cidade, vestidos doutro vestir para
manter o anonimato, sinal de que os tempos mudaram mas nem por
isso.
Acerca do famoso princípio de Malaquias. Em que consiste afinal
o pricípio de Malaquias? Como é que se pode formulá-lo? Eu
sei, mas não posso dizer. Dou-vos, no entanto, uma ajudinha. Se
seguirem o conselho do Professor Timóteo, estejam atentos. As
ideias pairam voláteis, agarrem-nas meus caros amigos, agarrem-nas...
Eu venho já.
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